Doomscrolling: o que é, impactos na saúde mental e no trabalho e como evitar

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Doomscrolling é o hábito de permanecer rolando notícias, vídeos ou publicações negativas por tempo prolongado, mesmo quando esse consumo já provoca ansiedade, irritação, cansaço ou sensação de impotência.

O comportamento costuma acontecer em redes sociais, aplicativos de notícias e feeds que oferecem atualização contínua, criando a impressão de que sempre existe mais alguma informação urgente para verificar.

O problema não está em acompanhar acontecimentos difíceis ou buscar informação confiável. A diferença aparece quando a busca deixa de ajudar a compreender ou decidir e passa a funcionar como um ciclo: a pessoa encontra uma notícia preocupante, sente necessidade de saber mais, encontra novos conteúdos negativos e continua rolando, embora esteja se sentindo pior.

Uma revisão de escopo publicada em 2026 reuniu 17 estudos empíricos e descreveu o doomscrolling como um comportamento habitual ou compulsivo de consumo de conteúdo negativo, associado a diferentes indicadores de sofrimento psicológico.

O que é doomscrolling e o que a expressão significa?

A palavra combina os termos ingleses doom, ligado a desgraça, fatalidade ou algo ameaçador, e scrolling, o ato de rolar uma tela. Em português, a ideia pode ser entendida como rolagem compulsiva de notícias ou conteúdos negativos.

A expressão ganhou enorme visibilidade durante a pandemia de COVID-19, quando incerteza, isolamento e atualizações constantes incentivaram muitas pessoas a checar notícias repetidamente.

O termo, porém, continua atual porque o mecanismo não depende de um evento específico. Guerras, crises econômicas, desastres, violência, conflitos políticos, ameaças à saúde e outras situações de grande repercussão podem aumentar a sensação de que é necessário acompanhar tudo em tempo real.

A Mayo Clinic explica que essa procura geralmente começa com uma intenção compreensível: entender o que está acontecendo e se preparar. O ciclo se torna improdutivo quando nenhuma quantidade de informação reduz a incerteza e a pessoa continua buscando mais.

Isso também ajuda a separar doomscrolling de uma consulta normal às notícias. Ler uma reportagem, comparar fontes e encerrar a busca depois de obter o que precisava não caracteriza necessariamente o comportamento.

O ponto central é a repetição difícil de interromper, concentrada em conteúdo negativo e acompanhada de perda de tempo ou piora perceptível do estado emocional.

Mulher usando smartphone ao lado de um notebook em uma mesa de trabalho
O celular pode entrar automaticamente na rotina entre uma tarefa e outra; perceber quando a consulta vira rolagem repetitiva é o primeiro passo. Foto: Shixart1985 / Wikimedia Commons — CC BY 2.0.

Por que notícias negativas podem prender tanto a atenção?

Quando o ambiente parece incerto ou ameaçador, buscar informação pode dar a sensação de que estamos recuperando controle. O cérebro tende a priorizar sinais de ameaça porque eles podem ser relevantes para segurança e tomada de decisão.

No ambiente digital, essa tendência encontra feeds que oferecem novidades sem uma conclusão clara: sempre há outro post, vídeo, comentário ou manchete logo abaixo.

A revisão de 2026 identificou, entre as explicações discutidas na literatura, ruminação, exaustão emocional e intolerância à incerteza. Recursos como rolagem infinita e entrega algorítmica de conteúdo também aparecem como elementos capazes de sustentar o comportamento. Isso não significa que um algoritmo obrigue alguém a fazer doomscrolling nem que toda pessoa reaja da mesma forma.

Significa que o formato contínuo reduz os pontos naturais de parada e facilita a passagem de uma consulta intencional para uma sequência automática.

Há ainda um paradoxo: a pessoa pode continuar consumindo conteúdo porque quer diminuir a insegurança, mas a própria sequência de ameaças mantém a sensação de alerta.

A Mayo Clinic descreve esse movimento como uma busca por respostas que pode se tornar obsessiva e pouco produtiva. O resultado é uma espécie de dramaturgia preventiva ao contrário: em vez de a informação organizar a ação, a cena nunca termina e a próxima manchete mantém o espectador preso ao conflito.

Esse fenômeno faz parte de uma discussão mais ampla sobre saúde digital, mas não deve ser confundido com qualquer uso intenso de celular.

Uma pessoa pode passar bastante tempo em uma tela por motivos de trabalho, estudo ou lazer sem estar presa a notícias negativas. Doomscrolling descreve um recorte específico: conteúdo ameaçador ou angustiante, repetição e dificuldade de encerrar a busca.

Como reconhecer quando a rolagem virou doomscrolling

Não existe um número universal de minutos que separe o uso normal do doomscrolling. O comportamento é mais bem reconhecido pela combinação entre contexto, repetição e impacto.

A pergunta útil não é apenas “quanto tempo fiquei online?”, mas também “o que eu estava procurando, consegui a informação necessária e consegui parar?”.

Alguns sinais práticos descritos por fontes clínicas como a Cleveland Clinic incluem:

  • abrir redes sociais ou aplicativos de notícias automaticamente ao acordar, antes de dormir ou em qualquer pausa;
  • atualizar o feed repetidamente na expectativa de encontrar uma novidade;
  • perder a noção do tempo enquanto uma publicação negativa leva à seguinte;
  • sentir ansiedade, estresse, irritação ou esgotamento e, ainda assim, continuar rolando;
  • ter dificuldade de voltar a uma tarefa porque a atenção permanece presa ao que foi lido;
  • perceber que sono, produtividade, relações ou tranquilidade estão sendo prejudicados.

Um sinal especialmente importante é a ausência de ganho de informação. Se novas postagens repetem o mesmo problema, não mudam sua decisão e apenas aumentam a tensão, a rolagem deixou de cumprir a função de informar.

Também é útil observar o impulso de retornar ao feed poucos minutos depois, mesmo sem expectativa concreta de atualização relevante.

Esses sinais não formam um diagnóstico e não devem ser usados como um teste clínico improvisado. Eles servem para reconhecer um padrão de comportamento e avaliar se vale a pena criar limites mais claros para o consumo de notícias.

Quais efeitos o doomscrolling pode ter na saúde mental e no sono?

Os estudos disponíveis apontam associações entre doomscrolling e indicadores como ansiedade, depressão, estresse, sofrimento psicológico e menor bem-estar.

A Doomscrolling Scale, desenvolvida e testada em três estudos, encontrou relações entre o comportamento, sofrimento psicológico, uso de redes sociais, medo de ficar por fora das novidades e indicadores de bem-estar.

É import

ante interpretar isso com precisão. A revisão de escopo de 2026 observa que grande parte da literatura ainda é transversal e baseada em autorrelato.

Por isso, associação não significa que o doomscrolling seja a causa única de ansiedade, depressão ou outros problemas de saúde mental.

Pessoas que já estão mais ansiosas ou preocupadas também podem buscar notícias negativas com maior frequência, e diferentes fatores podem se influenciar mutuamente.

O sono é outra área de atenção. A Mayo Clinic destaca a procrastinação do sono: a pessoa começa a rolar a tela à noite, encontra dificuldade para encerrar a sequência e permanece acordada além do horário planejado.

A Cleveland Clinic também cita alterações no sono, bem como dificuldade de concentração e fadiga mental entre os efeitos que podem acompanhar o hábito.

Na prática, o impacto pode surgir em cadeia. Uma sequência de conteúdo negativo aumenta o estado de alerta; a pessoa adia o horário de dormir; acorda cansada; tem menos recursos para lidar com estresse e volta ao celular buscando atualização ou distração. Interromper a rolagem não é uma “cura” para ansiedade ou insônia, mas pode remover um comportamento que está alimentando a sobrecarga em determinados momentos.

Mulher com expressão de cansaço segurando os óculos durante uma pausa
Cansaço e estresse podem ser sinais para interromper a sequência de conteúdo e recuperar a atenção, sem atribuir uma causa única ao uso digital. Foto: Shixart1985 / Wikimedia Commons — CC BY 2.0.

O que muda quando o doomscrolling acontece durante o trabalho?

No expediente, portanto, o custo do doomscrolling não se limita aos minutos gastos olhando a tela. Uma notícia preocupante pode continuar ocupando a mente depois que o celular é guardado, deixando parte da atenção presa a cenários, comentários e possibilidades negativas.

Esse efeito é especialmente relevante em tarefas que exigem concentração, bem como tomada de decisão, comunicação ou percepção de risco.

Doomscrolling no trabalho

Um estudo publicado em 2024 na revista Computers in Human Behavior investigou especificamente doomscrolling no trabalho. Em um estudo com intervalo temporal e outro de diário, os pesquisadores encontraram associação entre o comportamento, maior ruminação e menor engajamento no trabalho.

O ponto é distinguir uma pausa informativa de um ciclo que captura recursos atencionais e invade a tarefa seguinte.

Em ambientes operacionais, essa distinção também pode entrar na conversa sobre comportamento seguro: atenção fragmentada, pressa para “só ver mais uma atualização” e retorno à atividade sem recompor o foco merecem ser tratados como situações concretas, não como moralismo sobre tecnologia.

Também é importante separar o doomscrolling da síndrome always-on. No primeiro, aliás, o núcleo é o consumo repetitivo de conteúdo negativo.

No segundo, o foco está na disponibilidade e na conectividade permanente, especialmente quando o trabalho atravessa os limites do horário formal. Os fenômenos podem coexistir, mas não são sinônimos.

Para a gestão, então, isso muda a resposta. Se a pessoa entrou em doomscrolling durante uma pausa, medidas de autorregulação, limites de feed e recuperação da atenção podem ser úteis.

Se a dificuldade vem de uma expectativa organizacional de permanecer conectado o tempo todo, o problema exige também revisar canais, prazos de resposta e normas de disponibilidade.

Profissional usando smartphone em ambiente de escritório
Usar o smartphone no trabalho não é sinônimo de doomscrolling; o que diferencia o comportamento é a sequência repetitiva de conteúdo negativo e a dificuldade de retomar o foco. Foto: Shixart1985 / Wikimedia Commons — CC BY 2.0.

Doomscrolling, nomofobia, dependência digital e síndrome always-on não são a mesma coisa

Os quatro temas aparecem próximos porque envolvem tecnologia, atenção e comportamento, mas cada um descreve um problema diferente. Separar os conceitos evita transformar qualquer uso intenso do celular em um único rótulo.

ConceitoQual é o núcleo do problema?Exemplo de situação
DoomscrollingConsumo repetitivo de notícias ou conteúdos negativos, com dificuldade de pararA pessoa abre uma notícia preocupante e passa muito tempo seguindo manchetes semelhantes, mesmo se sentindo pior
NomofobiaAnsiedade ou medo relacionado a ficar sem acesso, comunicação ou conectividade pelo celularFicar muito angustiado diante de bateria acabando, falta de sinal ou impossibilidade de usar o aparelho
Dependência digitalUso problemático ou compulsivo mais amplo de tecnologias e plataformasO uso excessivo interfere repetidamente em sono, tarefas, relações ou rotina, independentemente de o conteúdo ser negativo
Síndrome always-onDisponibilidade digital permanente e dificuldade de se desligar, especialmente do trabalhoA pessoa permanece monitorando mensagens profissionais e se sente obrigada a responder mesmo fora do expediente

A nomofobia está ligada ao medo ou desconforto diante da impossibilidade de usar o celular ou permanecer conectado. Já a dependência digital é um recorte mais amplo de uso problemático, enquanto o doomscrolling depende especificamente da sequência de conteúdo negativo.

Na cultura always-on, por sua vez, a disponibilidade contínua para o trabalho é o centro da discussão.

Uma mesma pessoa pode apresentar mais de um desses padrões. Por exemplo, alguém pode ficar ansioso sem o celular, manter notificações profissionais ativas à noite e ainda consumir notícias negativas de forma repetitiva.

A existência de sobreposição, porém, não elimina a necessidade de identificar qual comportamento está ocorrendo e qual intervenção faz sentido.

Como interromper o doomscrolling sem se desconectar das notícias?

Parar de doomscrolling não exige abandonar notícias ou redes sociais. O objetivo é devolver intenção ao consumo de informação. Em vez de depender de força de vontade no meio de uma sequência desenhada para continuar, vale criar pontos de parada antes que a rolagem comece.

Entre as mais úteis estão:

  • definir horários para acompanhar notícias, em vez de abrir o feed a cada intervalo;
  • usar cronômetro ou limite de tempo quando perceber que costuma perder a noção da duração;
  • reduzir notificações que funcionam como gatilho para checagens automáticas;
  • escolher poucas fontes confiáveis, evitando percorrer dezenas de perfis para buscar a mesma atualização;
  • perguntar antes de abrir o aplicativo: “qual informação eu preciso agora?”;
  • observar como o corpo e o humor mudam durante a rolagem e interromper quando a sequência deixa de informar e passa apenas a aumentar tensão;
  • evitar levar a rolagem negativa para a cama, criando um horário de encerramento para notícias;
  • trocar parte desse tempo por uma atividade concreta, como caminhar, conversar, organizar uma tarefa ou fazer uma pausa longe da tela.

Um recurso particularmente útil é criar atrito. Tirar o aplicativo da tela inicial, sair da conta, deixar o celular fora do alcance durante uma tarefa ou desativar alertas reduz a chance de uma checagem automática virar uma longa sequência.

A ideia não é demonizar o dispositivo, mas tornar o gesto novamente consciente.

Também vale testar uma regra de utilidade: depois de ler algumas atualizações, pergunte se a próxima informação mudará alguma decisão concreta. Se a resposta for não e o estado emocional estiver piorando, o ponto de parada já chegou.

Em situações que realmente exigem acompanhamento contínuo — por exemplo, uma emergência local que afeta deslocamento ou segurança — a solução é escolher fontes oficiais e intervalos definidos, não depender de um feed interminável.

Quando o incômodo com o uso digital merece ajuda profissional?

Doomscrolling, por si só, não deve ser tratado como um diagnóstico feito por meio de uma lista de sinais. Ainda assim, vale procurar ajuda quando o comportamento se torna difícil de controlar e começa a interferir persistentemente no sono, no trabalho, nas relações, no humor ou na capacidade de realizar atividades importantes.

A Cleveland Clinic recomenda considerar apoio profissional quando a pessoa não consegue romper o ciclo mesmo tentando estabelecer limites.

Um psicólogo ou outro profissional de saúde habilitado pode avaliar o contexto completo, inclusive ansiedade, depressão, estresse, dificuldades de sono ou outros fatores que podem estar relacionados. Buscar ajuda é diferente de presumir que o doomscrolling explica sozinho todo o sofrimento.

Também é importante não usar estratégias digitais como substituto de atendimento quando há sofrimento intenso, prejuízo importante da rotina ou risco à própria segurança. Nesses casos, a prioridade é avaliação profissional adequada, e não simplesmente reduzir o tempo de tela.

Como empresas podem abordar o tema sem transformar o celular em vilão?

No ambiente corporativo, uma campanha sobre doomscrolling funciona melhor quando fala de atenção, excesso de informação e escolhas de comportamento — e não quando vira uma regra genérica de “celular proibido”.

O aparelho também é ferramenta de trabalho, comunicação, autenticação, emergência e organização pessoal. A discussão precisa mirar o padrão que prejudica foco e bem-estar.

Para RH, SESMT e CIPA, o tema pode entrar em ações de educação sobre saúde digital e comportamento seguro. Uma abordagem prática pode trabalhar três perguntas: “O que eu vim buscar?”, “Essa informação muda alguma ação?” e “Consigo voltar à tarefa com atenção inteira?”. O objetivo é criar percepção de risco e autorregulação, não vigilância sobre cada uso do telefone.

A empresa também pode revisar o ambiente que produz hiperconectividade. Se mensagens urgentes são enviadas a todo momento, se existe expectativa informal de resposta fora do horário ou se o colaborador precisa acompanhar múltiplos canais simultaneamente, não faz sentido tratar todo problema de atenção como falha individual.

A cultura de comunicação deve definir o que é realmente urgente, quais canais servem para cada assunto e quando uma resposta pode esperar.

É aqui que o formato educativo pode ganhar força. Em vez de uma apresentação cheia de recomendações abstratas, uma cena pode mostrar um colaborador que abre o celular “só por um minuto”, entra em uma sequência de notícias alarmantes e retorna à atividade ainda ruminando o conteúdo.

Se a empresa quer trabalhar atenção, excesso de informação, hiperconectividade e hábitos de uso de telas em uma ação educativa, esses conteúdos podem ser incorporados a uma palestra sobre saúde digital dentro da SIPAT.

A proposta ganha mais valor quando a mensagem não é “abandone a tecnologia”, mas sim use a tecnologia sem entregar a ela o controle da sua atenção.

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